Volta
ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã
Rumou à capital, mas passado pouco
tempo vieram-lhe saudades dos pais e da Terra. Embora ela gostasse de dizer que
nunca deveria ter nascido na terra onde nasceu, o desejo foi mais forte.
Quando dos dias mais pequenos, a
camioneta levava um dia a lá chegar. Viagem maçadora. Recorreu ao amigo e
conterrâneo Ricardo, com quem tinha travado conhecimento próximo já na capital,
que de vez em quando também gostava de ir à terra com o seu automóvel, e este
de boa vontade dispensou boleia.
Partiam cedinho pelas 06:00h para
evitar as grandes filas (bichas) ao atravessar as localidades, só tinham 25 km
de auto-estrada até Vila Franca de Xira. O primeiro teste à paciência era no
Carregado, fotos nº 1 e nº 2 (pode ampliar foto clicando). Dali para a frente,
cada localidade e aglomerado populacional era mais um teste à paciência com o
pára e arranca. Mesmo Assim, Ricardo, com destreza e condução segura, fazia
essas várias centenas de quilómetros em 6 horas. Por volta do meio dia lá
estavam eles a almoçar na sossegada Santa Terrinha em casa da mãe de Odete.
Ricardo, era um jovem que depois de
passar a sua adolescência a trabalhar na agricultura. também rumou à cidade e
fixou-se na capital a trabalhar, ao mesmo tempo que estudava à noite. Jovem
alegre e divertido, atlético, não passava despercebido às jovens namoradeiras.
Odete, era uma jovem que quando
passava, deixava os homens a olhar para trás. A sua elegância, o seu porte fino
com lindos e grandes olhos castanhos numa cara rosada davam-lhe um beleza rara
e não resistiu ao porte atlético e simpatia de Ricardo, que começou a sentir
algo mais por ele. Mas essas viagens acabaram depressa.
Odete tinha recebido uma cultura de
classes e lutava entre o que já gostava de Ricardo e a diferença entre a
criação dos dois.
Ela, criou-se no Liceu vestindo roupas
de marca e se alguma vez passou por Ricardo nesses tempos, nem lhe chamou à
atenção.
Enquanto que Ricardo nesses tempos
quase nem tinha tempo para se divertir e roupas de marca nem sabia o que eram.
Agora, Odete gostava de Ricardo e
começava a ficar um pouco perdida por ele e como não era parva, via em Ricardo
um homem de futuro, mas o problema social começava a traí-la.
Deu a entender a Ricardo que estava
disposta a sacrificar a diferença social entre os dois para o aceitar, mas não
escolheu a melhor forma de dizer isto a Ricardo. Disse-o de uma forma
humilhante para
Ricardo,involuntariamente, mas era a
formação sócio/cultural/familiar que lhe dava essa forma de ver as coisas e a
estava a trair.
Ricardo, embora não sendo vaidoso, mas
tinha plena consciência da sua posição na sociedade. Já tinha viajado e vivido
algum tempo no estrangeiro, por isso, sabia bem o chão que pisava.
Ricardo, embora já começasse a gostar
de Odete, mas assim, achou que não estava ali a mulher da sua vida.
Odete conheceu outro homem, casou mas
em breve haveria de fIcar com uma fIlha para criar depois de um divórcio.
Ricardo, concluiu o seu curso
universitário, conheceu a mulher da sua vida, três filhos e a vida profissional
proporcionou-lhe condições sociais a nível de classe social que Odete nunca
conseguiu.
Decorridas três décadas cruzaram-se
novamente, mas agora a diferença social inverteu-se. Quando Ricardo quis falara
de igual para igual com Odete, ela olhava para ele com a mesma diferença com
que olhava trinta anos antes, mas agora olhava para Ricardo de baixo para cima.
O mesmo aconteceu com o cruzamento do
Carregado, ao lado foto, está um cruzamento/nó de Auto-estradas em todas as
direcções, abrindo os caminhos do futuro, que uma delas leva Ricardo à sua
terra em metade de tempo de há trinta anos.
E, enquanto que esta viagem há trinta
anos era uma viagem de cansaço, hoje é uma viagem de passeio e turismo. Tendo
em conta também o automóvel de há trinta anos e o automóvel de hoje.
Em três décadas, mudam enormemente os
tempos, a sociedade e as as condições
americo martins
Etiquetas: Efeito perverso das diferenças sociais

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