Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã




AVENTURA AFRICANA

Partiram ainda crianças para África. Era o sonho de gerações. Quando uma família, que vivia com dificuldades na Europa e partia para África, partia para o imaginado paraíso. Meados do século XX.
De Luanda até Vila Pompa, foram duas semanas. Era tempo das chuvas e o asfalto eram apenas uns escassos quilómetros a sair de Luanda - dos cerca de 900 km que tinham para percorrer em estradas apenas iniciadas só em terra batida alinhadas com as Bulldozers e ou enxadas e picaretas, nem cilindro tinham levado por cima, apenas a terra ficava mais dura quando ficava seca com o calor escaldante a seguir às chuvas torrenciais e diluvianas. Então, aquela terra argilosa ficava dura quase como o cimento, mas logo que vinha nova chuvada e às primeiras pingas, ficava escorregadio que nem sabão.
Adolescentes, família de seis irmãos, quatro rapazes e duas raparigas, pais de 40 anos, eram a família ideal para ir colonizar África nesta nesses tempos.
Alguns dos irmãos, desanimaram completamente durante a viagem. Não fosse tão impossível voltar para trás, teriam regressado à aldeia que tinham deixado para os lados das Beiras.
Duas décadas passaram e os picanços transformaram-se nuns empresários em vários ramos de negócio, desde a industria, agricultura e comercio.
África estava cheia de homens ricos e solteiros.
Uma das irmãs, casou com um comerciante e a outra com militar que tinha ido para lá combater na guerra colonial, por sinal seu conterrâneo. Apaixonou-se pela rapariga, ficou por lá e casaram. Ficou mais uma família a colonizar Angola.
Para os homens casadoiros em África, já era mais difícil arranjar casamento sem sair de África. A solução era voltar à terra de origem, procurar casamento – que não era difícil encontrar casamento para um africano branco.
Carlos, (nome fictício) faz uma viagem relâmpago de algumas semanas a Portugal, conheceu uma professora das redondezas e casaram.
Isabel, era uma jovem professora, vinte e poucos anos.  Mulher bonita e ambiciosa, que quis conhecer África, já tinha sonhado com África e ao deparar-se-lhe a oportunidade que se lhe deparou, não perdeu muito tempo a pensar com receio de a perder. Pensava ela que afinal tinha descoberto a África dos sonhos do futuro. Casava com um homem rico e ia para África. Já tinha tudo feito em África. Completava assim dois sonhos em um.
Em África, não encontrou o paraíso, mas tentou adaptar-se às circunstâncias, mesmo assim, considerava-se uma mulher vencedora.
O homem que tinha conhecido em poucas semanas em Portugal, deslocando-se num automóvel de marca, proporcionando-lhe bons momentos, visitando todos os locais de interesse na Região das Beiras, embora quase sempre calado e de poucas falas, com sorriso na cara pronto a ouvi-la, pensava ela que seria a formação educada dele a dar-lhe toda a oportunidade para ela falar, em África ainda era mais calado e pouco tempo tinha para ela.
Isabel, aproximava-se dos 30 anos e desejava ter filhos, mas via em Carlos pouca vontade de os ter.
Após a sua inteligente acção psicológica sobre Carlos, soube que havia um problema de infecção crónica genética que Carlos contraíra com mulheres africanas antes de ter ido a Portugal conhecer Isabel. Por isso, Carlos não queria ter filhos, pensando que poderiam vir contagiados
 Afinal, o homem com quem casou, não era o homem que tinha imaginado em Portugal, mas estava disposta a levar a sua vida pela frente e por isso não iria desanimar.
Começou a dar aulas em África. A colega, era a Nizé Ginga. Tinha a formação de professora interina. Menos formação académica que Isabel. Não tinha passado por um Bacharelato. Tinha apenas frequentado um curso de aperfeiçoamento, daqueles que se tiravam em África, depois de completar o 1º ciclo. Ficavam assim prontas para ensinar na primária.
Nizé Ginga, seria a pessoa ideal para lhe explicar o mistério do seu marido com mulheres africanas.
Nizé, conhecia todos aqueles segredos africanos, já era uma mulher casada com filhos e era filha de uma família tradicional africana que conhecia todas as culturas e segredos africanos, seu pai, com 3 mulheres e 26 filhos, era homem viajado e de negócios, sobretudo em agricultura e criação de gado, por isso, conhecia todos os hábitos, cultura e tradições africanas, onde Nizé ia buscar todos os conhecimentos que necessitasse.
Nizé, explicou a Isabel todos os hábitos que alguns homens brancos em África (sobretudo os que viviam no interior, que era o caso) costumavam ter com mulheres africanas.
A independência de Angola e a forma precipitada como aconteceu, surpreende tudo e todos.
De regresso a Portugal, Isabel vê uma luz ao fundo do túnel.
A família Picanços regressou a Portugal.
Já em Portugal, Isabel, continua a ficar baralhada. Não sabia bem se esta situação estava mesmo a acontecer ou se seria ficção.
Mais um momento dificílimo para o clã Picanços. Todos regressaram a Portugal e com pouco mais do que tinham lavado para África havia 30 anos.
Não foram dos que passaram os primeiros tempos em frente à Assembleia da Republica a gritar e a reivindicar. Mas circularam pelas ruas de Lisboa no mês de Novembro, só de camisa branquinha de meia manga, à procura de oportunidades para se fixarem e recomeçar a vida.
Finalmente conseguiram, depois de bater vários pontos do país, recomeçaram a sua vida.
Isabel, desde que regressou a Portugal, ficou uns tempos pensativa, mas veio o início do verão, havia que matar saudades das praias que tinham deixado em Angola que poucos dias as frequentou.
 Procuraram a praia da Costa da Caparica, fazia lembrar algumas praias extensas que tinham deixado em Angola. A água é que era diferente, mas era suportável.
Isabel já tinha frequentado as águas da Caparica nos tempos de juventude. Para além disso, o voltar a estas águas desta praia, trouxe-lhe umas saudades imensas. Quando para lá ia com o seu grupo de amigos divertidos, em que imaginava a vida completamente diferente daquilo que lhe aconteceu. Por isso, estar de novo a pisar esta areia, parece que lhe dizia que uma nova página do livro da sua vida, se estava a abrir!
Quando estavam nas filas dos auto-carros na Costa da Caparica à espera da sua vez para regressarem a casa, Carlos desesperava com facilidade, e começava a pronunciar palavras e frases inconvenientes, a pontos de Isabel se ver obrigada a disfarçar não ser sua familiar
 Até porque o Carlos não tinha conversas muito interessantes, e agora Isabel já não precisava de se sujeitar só às conversas de Carlos, já tinha com quem conversar a nível dela.
Inevitavelmente, as relações foram-se deteriorando, com o tempo, o fim da relação e casamento também foi inevitável.
Divórcio e separação, cada um seguiu a sua vida própria.
Isabel procurou seus antigos e amigas para tentar refazer a sua vida. Quase todos já tinham feito a sua vida própria, mas mesmo assim, mostraram interesse e estabelecer contactos e encontros com Isabel
Dos seus antigos companheiros, também havia um que tivera um casamento não feliz, que acabaria por terminar. Iniciam uma relação e começam uma  vida a dois bem sucedida, reencontraram a felicidade e tentavam esquecer o passado.
O ex-marido de Isabel não conseguia esquecer Isabel do pensamento, pois também não aparecia nenhuma mulher que o quisesse ajudar a tal situação, não conseguiu resistir à tentação de procurar Isabel novamente e conseguiu. Ao passar por ela, disse-lhe para se um dia tivesse filhos, que evitasse passar por ele, com sentido de ameaças.
Isabel ficou assustada, pois um dos seus desejos da sua vida e uma das razões porque casou novamente, era para ter filhos. Agora via à sua frente mais um embuste.
Voltou-lhe Carlos à memória de noite e de dia, nem as boas conversas com o actual marido a conseguiam acalmar e ter confiança. Pensou adiar o planeamento para constituir família, ter filhos, mas o homem em quem ela agora tinha confiado, esforçava-se por lhe inspirar confiança e não viver apavorada.
Os dois em conjunto, embora não sendo fácil, mas conseguiram recuperar a confiança, afastando o passado, não foi fácil, mas conseguiram.
Agora, Isabel e o novo marido, tiveram os filhos que quiseram, constituíram uma família à maneira e gosto dos dois e são hoje uma família feliz
Em África, Isabel já tinha se resignado à situação, recorrendo a todos os meios para a tentar corrigir. Mas lá no fundo já tinha aceitado para com ela própria aquela situação para o resto da sua vida.
Como há males que vêm por bem, finalmente para Isabel assim aconteceu e uma luz se abriu para ela.
Isabel conseguiu a vida que desejava e merecia.






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