Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - Cidadania civil e militar.

Edifício Tribuna de Malanje antes da Independência
Campa do Zé do Telhado










                                                           Sociedade Civil e Militar


Compreende-se a insistência de muitos ex-Combatentes do Ultramar em solicitar o cartão com determinadas garantias e até reforma com o equivalente ao ordenado mínimo nacional. Não é que tudo isso não seja merecido, mas e onde estão as condições do país para isso! Faz-me lembrar, numa aula o professor insistia para que lesse-mos e estudasse-mos a Constituição, inícios da década de 80, e que visse-mos os direitos que tínhamos. Todos nós, trabalhadores estudantes noturnos, bem adultos e conhecedores da vida e do país, tivemos que dizer ao professor: o que servia estar escrito na Constituição, se o país não iria conseguir cumprir com ela! Alguns dizem e com toda a razão, essas pessoas que pouco fizeram na vida pelo país e depois ficam a beneficiar de reformas chorudas, é verdade! 1º - Temos que ver o país que temos atualmente e se este país que temos atualmente tem condições para satisfazer todas estas solicitações que muitos ex-combatentes do Ultramar reclamam. 2º - Como é que o país teve condições para solicitar a todos os que para lá fomos e agora não tem condições para ter respeito, pelo menos por aqueles combatentes mais necessitados e alguns até chegaram às dificuldades extremas em que vivem por causas de sequelas dessa guerra.

Nunca me esqueceu, princípios da década de 70, estava eu na cidade de Malanje, circulava eu pelo jardim principal da cidade, frente ao Palácio do Governo Civil, lado Sul, ouvi uma pessoa discursar a alto-falantes virados para o grande jardim, que nos dois topos ficavam, a nascente o grande edifico do Tribunal, a poente ficava o grande edifício do Banco de Portugal e a Norte ficava a Estação dos C Ferro, quero com isto dizer que ali circulava muita gente. Só se ouvia a voz sair dos alto-falantes mas a pessoa estava lá dentro, circulava pela boca desses transeuntes o nome do discursante, fixei o nome, já não me lembro o que ele dizia, só sei que achei aquelas palavras esquisitas e estranhas, para mim não faziam sentido nenhum, não tinham nada a ver com o que eu já tinha visto e ouvido durante alguns meses nesta cidade, mas lembra-me de as pessoas que circulavam no Jardim, negros, brancos e mestiços, dizerem: mete-o à sombra, ele é maçónico, não tem religião, eu nem sabia bem de quem se tratava. Próximo do jardim ao lado da Estação dos C. Ferro, ficava a Sé Catedral um imponente e belo edifício moderno que todos domingos havia uma grande movimentação de gente no largo à sua frente, negros brancos e mestiços. Nessa altura eu pouco percebia de política, quis saber de quem se tratava e haveria de ser aquele que depois do 25 de Abril, viria a fazer uma “descolonização exemplar” que recebeu um país sem dívidas e com uma das maiores reservas em ouro do mundo, que já como governante e à frente do nosso país disse que os portugueses beberem um café todas as manhãs era um hábito de burguesia, mas toda a gente sabe a ostentação, opulência e luxúria com que ele vivia. Não tinha religião, apregoava a sua condição de ateu! Mas quando o filho ia no avião que caiu em Angola que se dizia na altura, transportava coisas especiais e valiosas e foi para o hospital da África do sul, a mãe, antes de ir visitá-lo ao hospital, segundo se disse na altura, foi a Fátima fazer uma promessa a Nossa Senhora de Fátima. Esse jardim atrás referido, vim a saber que tinha uma grande história. Nessa região, foi por onde andou o Zé do Telhado depois de ter sido deportado. Contavam os residentes locais que estando ele a ser julgado nesse tribunal em Malanje e quando o Juiz proferiu a sentença que era ficar na prisão sem prazo determinado, o Zé do Telhado pediu ao Juiz que fosse ou mandasse alguém à varanda ver quem estava no jardim, o jardim estava cheio e é +/- do tamanho de dois campos de futebol, toda essa gente estava armada de flechas e catanas e se no fim da sentença o Zé do Telhado não aparecesse fora à frente do Tribunal, eles invadiriam o Tribunal. O Zé do Telhado foi libertado e foi para junto do seu povo. Quis visitar a campa do Zé do Telhado, ficava a 200 km a Leste/Nascente, verifiquei que estava limpa e bem cuidada, apesar de já ter sido ali enterrado há uns 100 anos, disseram-me que aquela campa nunca esteve sem ser cuidada, enquanto as campas dos colonos e brancos que ali tinham sido enterrados, lá estavam os seus nomes, estavam quase todas abandonadas e cheias de Capim. Mas em Malange, apesar de ter sido uma cidade que gostei e admirei bastante o progresso com que se estava a desenvolve, desde a industria ao comercio, estava em construção um prédio, para um grande centro comercial e habitacional com 14 pisos acima da superfície, e seus campos agrícolas infindáveis, desde milho, amendoim, sisal e muitos outros, principalmente o algodão que era uma das maiores regiões do mundo nesta produção a muitas centenas de quilómetros de distancia com excelente clima, mas também ouvi num dos grandes armazéns de pronto a vestir, quando estava a comprar uma peça de roupa, dizia um dos proprietários do estabelecimento, que os militares de Portugal só iam para Angola a passar ferias, ele era originário dos lados da Beira Alta, não sabia que eu era militar porque eu estava à civil, custou-me muito ouvir aquilo, porque nós tínhamos passado mais de um ano no Norte, isolados sem nunca termos visto população civil, para alem daquela que alguns turras se entregavam à tropa e pediam que fossemos libertar as suas famílias, lá íamos nós noites e dias pelas matas, morros e pântanos, atacados com frequência, tínhamos que responder, trazíamos esses familiares de guerrilheiros, os que podíamos e conseguíamos e ficavam a fazer a sua vida próximos do nosso aquartelamento. Mas a grande maioria da população de Angola era amiga da tropa, negros, brancos e mestiços, colaborava com a tropa e recebia-nos bem, sobretudo os ex-militares que tinham ficado lá depois de fazer a tropa. A nossa companhia não tinha tido mortos mas outras tiveram, e ouvir aquelas palavras daquele cidadão beirão/malanjino, custava!...

O que alguns ex-combatentes do ultramar solicitam, sem duvida alguma que é legitimo, justo e bem merecido, mas difícil de conseguir. 1º- Porque o poder político actual não tem vontade, prefere dar a imigrantes e refugiados, porque é sua politica e é por aí que conseguem mais bazucas. Nós, ex-Combatentes do Ultramar, que muitos de nós, após terminar o serviço militar, tivemos que procurar a vida fora deste Portugal, alguns regressámos passados pouco tempo, mas outros permaneceram por lá muitos mais tempo, mas sempre a contribuir para o enriquecimento e construção do nosso país, hoje, aqueles que não conseguiram criar uma condição de vida que lhes permite ter um fim de vida desafogado, se estiverem à espera do reconhecimento da Pátria, passam mal. A Pátria de hoje já não é o que era quando nós a servimos e defendemos, os benefícios Pátria de hoje é só para os privilegiados, que mesmo tendo fugido ou evitado o cumprimento do dever para com a Pátria, estão a usufruir de excelentes mordomias à custa da Pátria, que se servem dela para viver ostentosamente e isso não dá para todos. 2º- O nosso país tem uma das maiores dívidas de toda a sua história, serão muitas gerações a trabalhar para saldar esta divida. Assim o mais que se conseguirá, se um dia as politicas de governação mudarem, será algum reconhecimento com alguma pequena ajuda monetária. Todas estas reivindicações são legítimas, justas e bem merecidas, mas difíceis de conseguir atualmente.

 

 

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