Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã - TIAGO
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TIAGO
Zulmira, jovem a viver em meios urbanos com grandes propriedades por próximo, ganhava a sua vida como trabalhadora por conta de outrem. Jovem alegre, divertida e sempre bem disposta, dava nas vistas por quem a rodeava, amigos e amigas não lhe faltavam, era uma daquelas pessoas que todos a queriam por perto, pois a onde ela chegava punha toda a gente bem disposta, mesmo aqueles que fossem mal humorados.
Já estava na idade casadoira e ela própria pensava em constituir família, mas de uma forma normal, tradicional e à sua maneira, queria constituir uma família bem completa, marido, filhos em número médio, que por esses tempos a média das famílias era 4 a 5 filhos.
Zulmira (todos os nomes são fictícios) também era uma jovem mulher com beleza acima da média, pretendentes para um casamento dentro da normalidade não lhe faltavam, mas imaginava e desejava ir de vestido branco e ramo de laranjeira ao altar da igreja.
O seu patrão, homem dos seus 50 anos, casado e com vários filhos, alguns já quase da idade de Zulmira, começa por passar a dar-lhe melhores condições de trabalho passando a chamá-la para terem conversas a sós. Ao principio, Zulmira ainda pensou tratar-se de uma normalidade, pois ela já era uma profissional experiente e sempre seria necessário alguém que orientasse quem entrava de novo, mas logo de seguida, o patrão, passou a convida-la para conversas a sós, mas não demorou em perceber que tudo aquilo trazia água no bico, quando se apercebeu das intenções do patrão, já teve dificuldades em voltar atrás, o patrão já era experiente nessas atitudes e já não falhava, começou a fazer chantagem com ela e de seguida passou a fazer ameaças às resistências dela e Zulmira e quando se apercebeu da realidade já estava nas mãos do patrão.
Por esses tempos, eram tempos difíceis, Portugal sofria os efeitos do fim da guerra civil em Espanha e em plena guerra mundial na Europa, uma mulher trabalhadora, defender-se das tentativas de abusos de um patrão não era fácil, as policias e as autoridades judiciais andavam ocupadas com casos de mais importância e os patrões também tinham os seus poderes sobre os seus empregados, por isso, Zulmira muito se consumiu mas nada pode fazer.
Não demorou em ficar grávida e a solução foi parir o filho e pensar em criá-lo, mas o patrão, depois de ela voltar dos dias de parto, não a aceitou mais ao trabalho, mas sendo conhecida nas redondezas e atendendo à situação dela, não faltou quem lhe oferecesse trabalho de imediato, mas o pai do seu filho nunca o quis reconhecer nem dar-lhe qualquer ajuda para o sustentar.
Zulmira teve que se fazer à vida e enfrentá-la com coragem, pois já não tinha duvidas que teria uma vida nada parecida com a que antes tinha imaginado, mas havia que tentar uma vida da melhor maneira possível.
Baptizou o filho na igreja da qual ela gostava de ir à missa sempre que podia, conhecia o padre e o padre foi compreensivo e o baptizado realizou-se dentro da normalidade, era filho de pai incógnito, (nessa altura era assim) pois o progenitor quis livrar-se de tudo, quando do seu envolvimento com Zulmira, ela já era de maior.
O seu rebento crescia saudavelmente, no meio de todas aquelas tristezas para Zulmira, o crescimento do seu filho Tiago trazia-lhe algumas alegrias, e Zulmira passou a recuperar parte da sua alegria de viver em redor do seu filho.
Mesmo já com um filho, Zulmira continuou a ter pretendentes para casamento, passou a afirmar-se nessas decisões, só com promessa de casamento sério e respeito pelo filho que já tinha, ela só aceitava proximidade íntima com alguém que lhe inspirasse total confiança.
Um houve, que reuniu todas essas condições e Zulmira casou, mas já não foi de vestido branco e ramo de laranjeira ao altar da igreja receber o seu noivo e marido.
O casal inicia a vida normal de um casal recém-casado e dentro do tempo normal veio o primeiro filho da casal, davam-se bem, o marido era compreensivo com o Tiago, com o tempo vieram mais filhos e passaram a fazer uma vida normal de um casal normal.
Tiago crescia e chegou o tempo de ir para a escola, Zulmira sabia que tinha que ter uma atenção especial para com Tiago, pois na escola acabariam por saber que ele não era filho do marido dela. Conversou com o professor e o professor foi compreensivo e ajudou-a nesse sentido, até lhe disse que se estivesse em dificuldades financeiras, ele a ajudaria nas despesas da escola com Tiago. Não foi preciso e o Tiago viria a fazer a escola primária sem problemas, nunca foi discriminado em nada, antes pelo contrário, como era bom aluno até era procurado pelos outros e com muitos amigos.
Como Zulmira era católica confessa, não quis deixar de inscrever Tiago também na catequese e teve o mesmo cuidado com a situação de Tiago, foi falar com padre da paróquia e este também foi compreensivo e disponibilizou-se a ajudar Zulmira, caso ela precisa-se.
Terminada a escola primária, Zulmira não queria que Tiago ficasse por ali ocupando o tempo nas brincadeiras, falou com o professor e com o padre, se Tiago teria capacidade e inteligência para ela investir nele e pô-lo a estudar, tanto o professor como o padre foram unânimes em apoiar a sua ideia e o padre, sabendo da condição de Zulmira, até se prontificou a ajudá-la financeiramente caso ela estivesse em dificuldades.
Tiago iniciou os estudos secundários, era bom aluno e tudo corria bem. Tiago era um jovem alegre e divertido, herdou o sangue da mãe e os conselhos que ela lhe dava, assim ele próprio, que gostava de ir pela igreja ver os amigos, começou a ser solicitado pela paróquia para colaborar em algumas actividades, dava bom ambiente e era bem visto por toda a gente, passou a fazer parte dos grupos organizadores de actividades recreativas da paróquia, sendo conhecido por bom bailarino e candidatas a namoradas não lhe faltavam.
À medida que Tiago ia crescendo, ia-se tornando num homem responsável, terminado o seu curso técnico, com 17 anos, teve logo oferta de emprego numa fábrica da região como técnico e a ganhar um ordenado superior ao que ganhavam alguns chefes de família, mas não pensava parar de estudar, continuou até acabar o secundário e de seguida ir para a universidade.
Passado pouco tempo no seu trabalho, o seu chefe chamou-a à parte para uma conversa a sós e disse-lhe em voz baixa que ele estava produzir o dobro do que ganhava e metade do que produzia ia para o patrão. Tiago só ouviu e nada falou, ficou um bocado baralhado com aquelas palavras e ainda mais por virem do seu responsável, ficaram-lhe a soar nos ouvidos, até se revoltou um bocadinho, pois ele até estava a ganhar um ordenado que quando foi para a fabrica nem pensava ir ganhar tal ordenado.
Passados uns dias, o mesmo homem voltou a abordá-lo e convidou-o a assistir a uma reunião à noite em parte clandestina que só saberia onde era depois de dizer sim.
Tiago ainda ficou mais confuso, começou a pensar em si e na vida dele, o que seria aquilo! Estava habituado a quando saía do trabalho ir divertir-se nas tardes criativas da paróquia, que até já ia colaborando em ajudas financeiras para agradecer o que o padre e a paróquia fizeram por ele.
Como era um jovem cheio de vida, não queria ter receio de conhecer sempre mais alguma coisa, decidiu ir à tal reunião nocturna e clandestina, isso nada o impediria de continuar a sua vida social divertida pelas associações de que já era hábito e costume divertir-se, e como era o seu chefe, disse que sim, que iria à reunião. Foi informado do local, mas foi-lhe pedido todo o secretismo, ninguém mais poderia saber.
Tiago apareceu no local só exactamente à hora marcada, como tinha sido bem advertido para assim proceder. Na reunião estavam só meia dúzia de homens, foi informado que nada do que ali era dito poderia ser dito cá fora. Nos dias seguintes, Tiago andou pensativo, no próprio trabalho foi notado o Tiago andar tão pensativo, o próprio Director da Fabrica que já o tinha debaixo de olho para uma promoção no futuro pelo bom trabalho que estava a executar, foi falar com ele, ele disse que era um problema pessoal familiar e que isso passaria brevemente.
Não mais deixou de ser contactado por essa organização mas sempre no maior dos secretismos e passado pouco tempo em nova reunião e perante um júri de três elementos foi pressionado, para deixar de frequentar todas aquelas actividades do costume e passaria a dedicar o seu tempo extra trabalho à organização, era um partido político. Tiago aí precisou de muito mais tempo para pensar.
Demorou dias, mas já era tarde para recuar, apercebeu-se, caso recuasse, possivelmente a vida dele passaria a ser diferente, não teria mais sossego e liberdade para voltar às diversões nas colectividades do costume, assumiu aceitar a proposta e obediência à organização.
Já tinha ouvido falar nesse partido, mas nunca lhe tinha passado pela cabeça que um dia viria a pertencer a esse partido, a partir daí, passou a receber ordens secretas e todo o seu tempo livre passou a ser dedicado ao partido, para além das aulas nocturnas.
Aproximava-se a idade de cumprir o serviço militar, foi-lhe proposto, caso quisesse, seria colocado fora do país e já não iria ao serviço militar, mas Tiago depois de analisar as consequências de tudo isso, implicaria afastar-se por tempo indeterminado da sua mãe, ele sabia quanto a mãe o amava e seria um choque muito forte se ele se ausentasse para o estrangeiro por tempo indeterminado e daquela forma e ainda não tinha falado com a mãe sobre a adesão de ele ao partido, a mãe ainda não sabia de nada. Não aceitou essa proposta do partido, preferiu esperar e cumprir o serviço militar. Foi mobilizado para o Ultramar como graduado e miliciano, já levava a frequência universitária e era seu objectivo terminar o curso quando regressasse do Ultramar.
Durante a comissão nenhum dos colegas se apercebeu das suas opções políticas, havia um dos lados de Braga que de vez em quando até mandava umas bocas contra o regime, mas Tiago sempre normal como os outros.
Terminada a comissão militar, passa à disponibilidade e ninguém se apercebeu de qualquer sinal de Tiago já pertencer ao partido mais temido pelo regime e que até esteve em vias de desertar, nem mesmo os serviços secretos infiltrados nas forças armadas se aperceberam de qualquer sinal de ter havido intenções de desertar, talvez porque ele na realidade tinha princípios de pessoa que gostava de viver uma vida normal e social como qualquer cidadão que não pensa nos partidos políticos.
Com o seu curso técnico que possuía, não lhe foi difícil arranjar de imediato colocação e a ganhar bem.
Com a maturidade militar que obteve, ainda começou por pensar se deveria continuar ligado ao partido ou não, pensou continuar por lá mas com menos frequência e simples militante, não dispensava ir a uns bailaricos com a sua namorada com quem pensava casar, mas queriam continuar a viver a juventude divertindo-se pelas festas.
No partido, rápido se aperceberam disso em Tiago e não perderam tempo em propor-lhe funções de responsabilidade para o comprometer a dedicar-se exclusivamente e cada vez mais ao partido e Tiago não teve outro remédio senão aceitar e mais uma vez se apercebeu de que cada dia que passava era mais difícil recuar e afastar-se do partido, viu também o tempo para se poder divertir pelas festas livremente, tinha acabado e decide casar.
Com toda esta movimentação de um ex-militar graduado e tão ainda recentemente, os serviços secretos do regime começaram a ter sinais disso e Tiago e o partido também se aperceberam disso. De imediato prepararam o terreno para Tiago se ausentar para o estrangeiro e por lá ficar. Foi difícil contar à sua mãe o que estava para acontecer. Para a sua mãe foi um grande desgosto, ela como católica convicta teve dificuldades em ver o seu querido Tiago seguir aquele caminho, falou com ele,, perguntou-lhe porquê, ele explicou-se como pode e a mãe não teve outro remédio senão aceitar. Também a agora já sua mulher ficou um bocado assustada, ele tinha-lhe falado no partido, mas não com aquela intensidade e quando Tiago partiu para o estrangeiro a mulher já ficava grávida e que viria a ter gémeos, um menino e um menino, mas sem a presença do pai Tiago.
Na clandestinidade no estrangeiro, teria de arranjar documentação falsa para se poder movimentar mais à vontade, o nome escolhido foi Victor e com apelido parecido com os do Leste europeu. Nome completo curto e parecido com nomes do Leste europeu, passaria mais despercebidamente. Do estrangeiro, continuou a fazer parte dos quadros superiores do partido. Passou a estar por perto de camaradas espanhóis, também na clandestinidade, onde havia alguns que já vinham dos tempos da guerra civil de Espanha
Victor, agora, continuava na sua luta na clandestina, continuava a dar o seu apoio logístico também aos camaradas espanhóis, que com dificuldades, iam tentando fazer frente ao regime franquista em Espanha.
Victor, agora com os camaradas espanhóis, eles explicavam-lhe muitos dos acontecimentos da guerra civil em Espanha, tanto os comunistas espanhóis como os comunistas portugueses, não sabiam se os tempos da guerra civil em Espanha, se viriam a repetir algumas décadas mais tarde, tal como aconteceu com as guerras mundiais. Assim, eles tentavam relembrar os acontecimentos da guerra civil espanhola, para eventuais acontecimentos parecidos no futuro.
Como por exemplo: com o início da rebelião das tropas direitistas espanholas no Marrocos espanhol, tudo se viria a alterar.
Com a ajuda da aviação de países estrangeiros, às tropas espanholas em Marrocos, atravessam o estreito de Gibraltar e Franco começa a fazer avanços e tomada de cidades ao longo da fronteira com Portugal.
Franco, sabia que para tomar Madrid, o assalto tinha que ser bem preparado e levaria meses a lá chegar, que acabou por levar anos.
Galiza e o Norte de Espanha também capitularam.
Para os vermelhos em Espanha, o espaço começava-lhes a reduzir-se
Para Victor, tudo isto não lhe era estranho, pois ele próprio tinha feito uma comissão de guerra ainda recentemente.
Victor pensava muito nisto, tinha mulher que havia muito tempo que não tinha visto e filhos que nunca tinha visto, por vezes até se sentia tentado a por fim à sua aventura pelo partido.
Optou por manter-se mais activo na ajuda logística aos camaradas portugueses e espanhóis, eles imaginavam um vitória final em conjunto, fim do franquismo em Espanha e fim do regime Salazarista em Portugal.
Sem mais aguentar, consegui fazer algumas viagens clandestinas a Portugal de uma forma muito bem preparada com documentação falsa e utilizando os processos dos passadores de emigrantes portugueses que iam a salto e consegui visitar a mulher e os filhos uma ou duas vezes.
Victor, tinha um tio/avô, casado em Espanha. Pensou, se arranjasse esse argumento, talvez lhe fosse mais fácil circular por Espanha e assim, passar a fronteira a salto para Portugal seria mais fácil. Visitou o tio/avô, mas este e toda a família da mulher, eram neutros. Nem apoiavam os franquistas nem os comunistas.
Mesmo assim, Victor sentia que essa situação o poderia beneficiar, podia circular por ali, apreciando tudo e sob a capa de que ia visitar o tio.
Numa das visitas, Victor, haveria de voltar a ficar confuso e baralhado.
Os camaradas espanhóis iam-lhe mostrando fotografias de inscrições murais do tempo da guerra civil em Espanha feitas pelos camaradas espanhóis. Nas inscrições murais, assinadas pelos seus camaradas, liam-se frases de perseguição e incentivo ao extermínio de grupos religiosos e à igreja.
Victor, vinha-lhe à memória, que foi desses grupos religiosos, o padre e da igreja, que lhe veio o principal apoio desde de criança e a eles devia parte da formação do homem que chegou a ser. Mas já tinha tomado a opção e já não podia voltar atrás.
O tio/avô, avisou-o também de que a família da mulher, não se sentia bem com as suas visitas. Sabiam que mais tarde ou mais cedo, haveria de ser descoberto, que era um português apoiante dos comunistas
Victor continuava movimentando-se e sem morada certa, não tinha paradeiro certo, era uma das peças fundamentais do partido, não poderia ser apanhado.
A policia politica portuguesa sabia de Tiago só não sabia que agora já era Victor, mas mantinha-o debaixo de controlo, mas já lhe dava uma certa liberdade. A própria polícia se ia apercebendo que Tiago se começara a arrepender do caminho que tomara em tempos. Mesmo assim, Victor continuava muito atento à evolução dos acontecimentos em Espanha e Portugal, por uma questão de segurança, não podia ter morada certa, pois ele era uma das promessas do partido, deslocava-se muito, inclusive para fora da Europa ocidental.
Victor, através dos seus familiares em Espanha teve conhecimento que um grupo de ceifeiros em Espanha no tempo da guerra civil, se tinha deslocado a Espanha às ceifas, regressou mais cedo do que o esperado a Portugal.
E porquê: ainda havia muito trigo em Espanha para ceifar e estes portugueses que até precisavam tanto de ganhar a jeira (diária paga) que era o dobro de uma jeira nos outros trabalhos do campo, não se importaram e regressaram mais cedo ma Portugal.
Esses homens, puseram-no ao corrente de algumas situações:
Estavam eles a dormir a sexta debaixo de umas árvores, depois de terem almoçado e viram passar um Jipe militar com civis e militares em direcção a uma pequena mata.
O Jipe entrou na mata e passado algum tempo, ouviram-se dois tiros.
De seguida, o Jipe voltou para trás e foi-se embora.
Os ceifeiros portugueses, antes de acabar a hora da sexta, levantaram-se e foram à mata onde o Jipe tinha estado. Viram dois civis mortos a tapar a boca com um lenço vermelho a jorrar sangue.
Os portugueses regressam à ceifa, falam com o patrão, pedem-lhe que lhes pague o que tinham ganho até ali e disseram-lhe que queriam regressar a Portugal.
O patrão, bem os tentou convencer que a eles ninguém lhes faria mal algum, aquilo era só contra alguns vermelhos dos que tinham sido mais activos e também tinham feito o mesmo aos franquistas.
O patrão tinha muita necessidade que os portugueses continuassem até terminarem a ceifa de todo o trigo. Tinha muito trigo e em Espanha havia poucos homens para ceifar o trigo.
Tinham morrido muitos na guerra, de parte a parte. Os que ficaram, os franquistas estavam a aderir ao exército e os chamados vermelhos estavam a fugir quanto possível.
Para Portugal fugiam muitos. As populações raianas, deparavam-se a todo o momento com espanhóis fugidos, a pedirem-lhe protecção. Uns tinham sorte, outros não. Mas alguns por cá ficaram e até chegaram a constituir família em Portugal.
Victor, ao ter conhecimento destes acontecimentos no tempo da guerra civil, leva-o a pensar que situações destas podiam vir a repetir-se nos tempos actuais, mantinha-se o mais discreto possível. Fazia as suas conspiraçõezinhas de acordo com as directivas do partido, mas tentava passar despercebido.
Victor, haveria de ter uma grande surpresa, que foi um dos maiores sustos da sua vida. Circulava ele na rua de uma cidade espanhola, não muito longe da fronteira com Portugal, e já sem o poder evitar, fica frente a frente com um ex-camarada de armas da guerra do ultramar que ia acompanhado da sua jovem mulher, era o João. Os dois ficaram perplexos a olhar um para o outro. Victor tinha sabido que João teria seguido a carreira militar e perante esta situação nem sabia o que havia de pensar, se teria caído numa armadilha ou se seria mesmo ocasionalmente,
João, agora já com a patente de oficial nível médio, que desde os tempos da tropa nunca mais o tinha visto, tinha ouvido umas conversas, muito pouco, que Tiago teria fugido para o estrangeiro ao serviço do partido. Mesmo do tempo da tropa não tinham tido muita confiança e convívio os dois, conheciam-se mais dos encontros para as refeições na Messe de Oficiais que ainda chegaram a ficar os dois na mesma mesa.
Tiveram uma conversa não muito longa, João apresentou-lhe a esposa, de nacionalidade espanhola, tinham-se conhecido nas praias de Tróia, era para estas praias que os pais da mulher de João costumavam ir passar as férias de verão, pois eram as mais próximas da sua residência em Espanha e era para Tróia que todos os anos iam e foi aqui que João e Olívia se conheceram.
O movimento de João não tinha nada a ver com os do 25 de Abril, nem sabia disso. O seu movimento era, por meio de negociações políticas dar a autonomia aos territórios ultramarinos durante algum tempo e de seguida a independência, ficariam lá todas as suas populações residentes, passariam a ser países independentes e os militares portugueses regressariam a Portugal, tudo dentro de uma normalidade. Disse a Tiago que dentro de poucos anos os territórios ultramarinos seriam países independentes, a guerra acabaria e Portugal seria um pais livre e democrático sem perseguições politicas e com bom progresso.
Tiago/Victor não quis comentar todo isto que ouviu de João. João prometeu a Tiago que aquele encontro ocasional entre os dois ficaria no segredo dos deuses e desejou-lhe boa saúde.
Cada um segui à sua vida e Victor foi pensando em tudo o que tinha ouvido da boca de um homem que ele considerava sério, não lhe estaria a dizer coisas que não fossem verdades. Mais uma vez lhe vieram pensamentos que já em mais vezes lhe tinham vindo, se a opção de ter aderido ao partido teria sido a melhor para a vida dele, mais uma vez voltou a ver que já não era possível voltar atrás.
João contou toda esta história à esposa mas disse que nada iria fazer ou dizer em relação a Tiago, são opções de vida de cada um e que todos temos que respeitar, sabia que nunca seria um perigoso opositor do regime e no futuro todo se resolveria.
Passado algum temo e sem que nada disto estivesse nos seus planos, Victor recebe a noticia da Revolução de Abril em Portugal,
De regresso a Portugal, torna-se num militante das cúpulas do partido, mas um militante moderado.


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