Volta ao Portugal de hoje, de ontem e de amanhã: O EMPRESARIO DE SUCESSO
CAPITULO EXTRAIDO DO LIVRO – ROMANCE RELIDADE E FICÇÃO DE – DE AMERICO MARTINS
EMPRESARIO DE SUCESSO
Levaram-me as Filhas e Roubaram-me as Empresas.
Uma pequena holding, com cerca de trezentos trabalhadores em vários ramos, o empresário Manuel, tinha construído estas pequenas empresas, que todas juntas já correspondiam a uma boa média empresa.
Mas Manuel, com boa visão de negócios que tinha, diversificou-os por vários ramos. Comercio e Industria.
A cultura e formação académica não era muita, 4ª classe, mas era homem de visão e empresário de sucesso feito a pulso, por isso, era bem visto, reconhecido e estimado na terra e por toda a região.
Com o seu trabalho, esperteza e inteligência, estava a construir o seu pequeno império.
Não lhe faltava crédito nos bancos e instituições financeiras. Tinha bom nome e bem limpo.
Era casado e bem casado. Uma família feliz. Lá por casa, mulher e duas filhas que eram a luz dos seus olhos. A mulher não colaborava muito nos negócios. Para além de, quando faltava algum empregado ou apertava o movimento no balcão da mercearia ao lado de casa, ela ia dar uma mãozinha durante algumas horas, o resto empenhava-se no bom desempenho e gestão doméstica e na esmerada educação das filhas.
Mas o empresário Manuel, também estava estruturado nesse sentido, preferia ter uma casa bem assistida e se fosse necessário metia mais um empregado, o negócio prosperava e dava para isso, conhecia todos os segredos de prosperar.
Tinha começado a trabalhar atrás de um balcão quando tinha 12 anos logo a sair da escola primária e sentia-se com experiencia e conhecimentos para conseguir resolver todos os problemas.
Geria as suas empresas sem sobressaltos, relacionava-se bem com todas as figuras importantes da terra. Era hábito almoçar com as figuras mais importantes, desde empresários a autoridades.
Progredia sem sobressaltos, as notícias de mudanças na sociedade, não o preocupavam muito, vivia o seu mundo de sossego e raramente dava atenção aquelas conversas que quando nos almoços com alguém que comentava mudanças na sociedade. Para ele isso era coisa de políticas e as empresas não tinham nem precisavam de se intrometer na política.
Quando alguém puxava uma conversa sobre as mudanças sociais, ele refugiava-se logo a pensar na família que tinha e de que tanto gostava.
A mulher, era uma excelente esposa e mãe de filhas. As filhas, cresciam e eram óptimas alunas nas escolas que frequentavam, estavam na adolescência e não se preocupavam muito com namoricos, que para ele, pai, o deixava mais descansado.
Elas eram atraentes e brilhantes estudantes, por isso o que ele temia e o preocupava era que se começassem a enredar com namoricos e os estudos ficassem para trás. Como por vezes próprio da adolescência.
Mas não, elas até nos tempos livres, já iam ajudar o pai nos negócios e não eram de esquisitices, pegavam em qualquer serviço, desde o escritório a atrás de um balcão a atender clientes. Estas filhas do empresário Manuel, para ele, era do melhor que podia haver.
O país, embora um pouco fechado ao mundo, vivia uma época de progresso, sem convulsões sociais. Para além do os jovens terem que partir para a guerrilha nos territórios portugueses ultramarinos, coisa que a ele não o preocupava muito, pois só tinha filhas, essa preocupação estava posta de parte.
Como o empresário Manuel não era homem de políticas, também não dava muita atenção quando a televisão mostrava algumas convulsões que se passavam fora do país.
À hora do jantar, as filhas comentaram os desacatos que se passavam entre a polícia e os estudantes em Paris, passados de relance pela televisão. Mas para ele, aquilo era no estrangeiro e cá em Portugal não viria a acontecer. Era preciso é, estar bem atento à gestão dos negócios.
As filhas concluíam os estudos liceais. Eram duas jovens bonitas elegantes, começam a ter pretendentes. Mas o empresário Manuel, não queria que casassem já, mas que seguissem para a Universidade e concluíssem cursos universitários, na área da Economia e Direito, a mais velha estava pronta para ingressar no curso superior e seguisse directamente para a Universidade, a mais nova seguir-lhe-ia os passos.
Seriam dois técnicos superiores que a empresa já estava a pedir com permanência e se fossem as próprias filhas a ocupar esses cargos seria o pleno para Manuel.
Ao mesmo tempo que cursavam na universidade, passariam também a acompanhar de mais perto o pai nos negócios, sobre tudo nas escritas e contabilidades, que era isso que preocupava mais Manuel
Manuel não lhe passava despercebido que o mundo e a sociedade estavam em bom ritmo de mudanças, mas não com preocupações, nas suas empresas reinava o bom ambiente, os seus empregados tinham ordenados acima da média e viviam todos uma vida financeira desafogada, coisa que sempre preocupou Manuel, dizia que um empregado não podia ter problemas financeiros, pois se tivesse esses problemas nunca desempenharia bem as suas funções laborais, por isso, fazia questão de os seus empregados serem bem pagos.
A preocupação de momento era acompanhar as mudanças e tecnologias no mundo dos negócios, via que havia boas oportunidades de novos negócios e crescimento para um maior Grupo de Empresas e começava-o a preocupar um pouco não ter na empresa alguém da família para que o acompanha-se, tinha consciência de que a sua formação escolar era limitada para os novos tempos, precisava de alguém por mais perto e em quem ele pudesse depositar mais confiança, mas as filhas acabariam os seus cursos, casariam e logo seriam vários elementos da família disponíveis para estas funções.
Paula, a mais velha, a estudar economia, de imediato se lança de todo o coração a acompanhar o pai em tudo quanto dizia respeito às empresas e na área da Contabilidade e Gestão.
O empresário Manuel, começava a pensar que se tivesse um homem a sucede-lo, seria mais seguro e confiante, pensares dessa época.
Já lhe tinha passado várias vezes pela memória, a conversa que tinha tido durante um almoço de negócios com um jovem representante de uma instituição financeira à qual estavam ligados por compromissos financeiros.
Essa conversa já lhe tinha vindo à memória por várias razões.
Esse jovem, contou-lhe que em 1973, acabado de terminar o serviço militar, num almoço no Quartel de Mafra, com um oficial superior de carreira, o oficial lhe tinha dito que Portugal estava a precisar de uma guerra. Esse mesmo jovem respondeu ao oficial que Portugal já tinha uma guerra, na qual ele próprio tinha andado. O oficial disse-lhe que também ele já lá tinha ido 3 vezes a essa guerra e que aquilo não era uma guerra, era uma guerrilha que só dava para andar em escaramuças e que os militares de carreira estavam cada vez a perder mais importância e poder e cada vez a ser mais mal pagos, por isso, havia que fazer uma revolução mesmo em Portugal.
O jovem profissional financeiro, advertira o empresário, que o país não estava seguro na estabilidade, em breve se poderiam avizinhar convulsões sociais em Portugal. Quereria com isto dizer que as empresas se deveriam começar a preparar para estas possíveis situações. E o jovem representante da instituição financeira, apercebeu-se de que as empresas do empresário Manuel, não estavam preparadas para uma eventual instabilidade social. Não tinham pessoas à frente para em caso de imergência, tomar decisões de enfrentamento e de instabilidades laborais. Esse jovem, já tinha conhecido a realidade de outros países que tinham passado por fases dessas.
Foi o primeiro alerta que o empresário Manuel levou a sério. Embora tivesse vindo de um profissional financeiro jovem, tocou-lhe e fê-lo pensar no assunto.
Mas o empresário Manuel, também gostou tanto do jovem que chegou a pensar nele como possível futuro genro.
Tinha em mente, que quando de uma oportunidade, o convidaria para um convívio familiar, para que o jovem tivesse a oportunidade de se começar a relacionar mais de perto com a família e se começasse a relacionar a nível familiar com as suas filhas. Pois a nível de negócios o jovem já conhecia as filhas do empresário Manuel.
Para o empresário Manuel, este jovem tinha-lhe inspirado tanta confiança que achava que seria o homem ideal para o começar a substituir na gestão das suas empresas, só teria que abandonar a instituição financeira onde trabalhava e ir trabalhar para as suas empresas. Mesmo independente do relacionamento a nível familiar, chegou-lhe a oferecer um completo ordenado e que fosse meio-dia, nem que fosse ao fim do dia, todas as semanas assistir a gestão e contabilidade do andamento das suas empresas.
O jovem não aceitou, para além de ser uma situação incompatível com as suas funções na instituição à qual pertencia, também cursava em fim de curso na universidade e tinha os tempos muito preenchidos.
Foram todas estas circunstâncias mais a seriedade que o empresário Manuel vira neste jovem, que o tenha cativado para seu possível gestor das suas empresas e possivelmente também seu genro. Mas tudo isto se ficou por ali, mas sempre que tinha um almoço com pessoas importantes, convidava sempre esse jovem a acompanha-lo, mas poucas vezes o jovem aceitava, tanto pela falta de tempo como porque achava que não devia ir. O empresário Manuel não desistia da ideia, não ficando isento de mais tarde esta ideia vir a ter seguimento. Ambas a partes não puseram a ideia de parte. Ficou, foi em standby.
O 25 de Abril de 1974, apanha o empresário Manuel de surpresa. Mas não ficou muito preocupado. Para ele, alguma coisa estaria a mudar na política, mas os negócios continuariam na mesma.
De inicio, até aderiu à ideia do 25 de Abril. Também se considerava cansado do regime deposto. Embora não tivesse cultura académica, mas sabia que havia países que viviam em democracia e seria bom. Ouvia dizer que a social-democracia é que seria bom, as filhas lá por casa, agora estudantes universitárias, iam trazendo novas ideias e faziam comentários lá em casa que Manuel até gostava de ouvir
Mas o estado de graça do 25 de Abril passou depressa.
As notícias das paralisações das empresas eram diárias e as empresas de Manuel não ficariam imunes.
À medida que os dias passavam, as esperanças de Manuel desvaneciam-se.
Por vezes nem queria acreditar naquilo que viria a ser verdade mais tarde.
As comissões de trabalhadores organizavam-se nas suas empresas. Para ele aquilo nem seria bom nem mau, era uma mudança dos tempos e havia que aceitá-la.
Os trabalhadores passavam algumas horas diárias em plenários discutindo o futuro e quais os seus direitos. Os dois sindicalistas, diziam que tinham direito a várias horas por dia para tratar de assuntos sindicais e no fim do mês receber o ordenado por inteiro como se estivem sempre a trabalhar. Começava a ver a produção das empresas a baixar, mas isso seria uma questão de pouco tempo, seria só enquanto os trabalhadores se organizavam e depois tudo voltaria ao normal. Tinha consciência de que os trabalhadores das suas empresas não teriam muito a reivindicar, já ganhavam acima da média dos salários do mercado.
Começava a ver alguns trabalhadores a tomar a liderança daquelas reuniões, alguns dos quais nuncas se tinham destacado na liderança da produção em tempos idos, eram os que nunca tinham recebido prémios de produção e exemplo.
Manuel, com a sua experiencia vivida, ia estando atento a todas aquelas movimentações estranhas, as suas desconfianças avolumavam-se.
Nos seus encontros habituais com Pedro, o jovem com o qual vinha
mantendo relacionamento financeiro e já o considerava seu conselheiro, falava-lhe da situação, mas Pedro evitava conversas profundas sobre a situação revolucionária e politica no país, porque na sua opinião maus tempos estariam para vir e não queria assustar Manuel, mas também não lhe queria mentir..
Pedro, também estava a viver a situação Revolucionária que o país atravessava, sobretudo na universidade. Para Pedro também estava a ser uma dor de cabeça. Ele que tinha planeado acabar o seu curso superior com mais dois anos que lhe faltavam e como a Universidade também estava a entrar em plena convulsão e à noite quando ia para as aulas, as salas de aulas eram ensurdecidas com os gritos dos estudantes diurnos, com boinas à che-gue-vara, que à noite iam para junto das janelas cá fora, aos gritos para dentro das salas de aulas para não deixarem os estudantes trabalhadores que frequentavam as aulas nocturnas, que concluíssem os cursos. Uma professora dos estudantes nocturnos, estrangeira, aproximou-se da janela e perguntou-lhes o que é que eles queriam, eles responderam que estavam ali para defender os interesses dos estudantes, alguns deles tinham aspecto de já terem batido os trinta anos ou mais, mas nunca tinham feito mais nada senão fazerem que estudavam, a professora disse-lhes que o que eles queriam era impedir que os trabalhadores estudantes estudassem, os outros dois professores eram portugueses, nem se manifestaram.
Alguns desses estudantes diurnos, que já eram conhecidos das manifestações, passados alguns anos passaram a Secretários de Estada e passados alguns anos a ministros nos governos dos seus camaradas, por isso é que o país ruiu economicamente.
Pedro acabou por desistir do curso, deixando-o por acabar. Mas continuava a acompanhar o desenrolar das situações revolucionárias do país nas conversas que mantinha com o seu cliente empresário Manuel. Pedro não sabia bem o que lhe havia de dizer. Na certeza porém, sabia que fortes convulsões se avizinhavam. Estava de veras preocupado com o futuro dos seus clientes, o mais provável seria que muitos deles não conseguiriam liquidar os empréstimos que tinham contraído à instituição financeira que representava.
Para o empresário Manuel, Pedro era sem dúvida a pessoa a quem pedia mais conselhos, quer em termos financeiros, como em termos de Leis, tanto em leis sobre situações financeiras e mesmo em leis laborais, Pedro estudava Direito e para Manuel, era o seu “Advogado” de mais confiança. Pedro ia aconselhando no que podia, mas começava a perder a esperança no seu cliente Manuel, sabia bem o que se estava a passar nas suas empresas, quando passava por lá e estava sentado no gabinete da administração com paredes de vidro, via bem o que se passava em redor, também se deslocava aos locais de produção para poder analisar a sanidade económica das empresas e nada dos pormenores lhe escapavam, já não tinha duvidas que se preparava um assalto às empresas de Manuel, mas Pedro não podia dizer nada directamente, sob pena de ele próprio correr riscos físicos, simplesmente lhe ia dizendo quando Manuel lhe falava em mais empréstimos, Pedro respondia que era preciso ter cuidado, porque tempos se aproximariam com dificuldades
Com o que Manuel conhecia de Pedro, isso já bastava para ele cada dia que passava tinha mais cuidado, adivinhava-se que um futuro pouco risonho se aproximava.
As filhas de Manuel, também tinham sofrido forte revês na vida, para estarem mais próximas das empresas, suspenderam os estudos, deixaram de ir à universidade e quiseram ficar mais de perto das empresas e do pai. Estavam a tentar salvar as empresas do pior.
Até o tirarem a carta de condução e comprarem o automóvel próprio para se deslocarem, ficou adiado.
O pai Manuel, é que fazia de motorista delas a leva-las às empresas para melhor poderem vigiar o que se estava a passar dentro das empresas.
As pessoas de mais confiança e trabalhadoras que trabalhavam lá dentro, começavam a abandonar a empresa.
Dois empregados, recém-entrados, já depois do 25 de Abril, para duas das empresas do grupo, que ainda estavam à experiencia, e que por isso os seus chefes por vezes os mandavam fazer serviço de motorista na distribuição, eram dos que andavam à frente das comissões de trabalhadores, soube-se mais tarde que foram os sindicatos com o apoio dos seus advogados marxistas que colocaram lá esses dois empregados para manipularem as comissões de trabalhadores, já iam preparados para isso. Querendo dar a entender que estavam ali para evitar que os trabalhadores lhe tomassem as empresas quiseram passar a colaborar com Manuel e as filhas.
Aqui, Pedro não teve duvidas, que estes dois empregados não andavam com boas intenções, chamou Manuel à atenção e o perigo que corria deixar andar aqueles homens por tão perto dele e das filhas tomando conhecimento dos movimentos de Manuel. Mas Manuel já andava muito confuso e baralhado, as filhas eram muito jovens e inexperientes, o que queriam era que alguém estivesse do lado delas.
Estes dois empregados, sendo já quase senhores do seu tempo, passavam a disponibilizar-se para fazer de motoristas do patrão e das filhas, assim, sempre que elas estavam por perto, eles de imediato se ofereciam para as transportar e dando-lhes garantia de segurança. Com o ambiente que ia pelas empresas, patrões e famílias não tinham respeito garantido.
Paula e Inês, Paula a mais velha e Inês a mais nova, também andavam um pouco desorientadas, todos os planos de vida que traziam de trás, foram por água a baixo. Viviam uma lufa-lufa para tentarem salvar as empresas do pai e suas do pior.
Embora tivessem desde a adolescência acompanhado o pai, mas de maneira nenhuma estavam preparadas para enfrentarem tal situação. Por isso, se valiam de todas as situações que lhes dessem alguma esperança e ajuda.
Começavam a ficar desoladas, ouviam o pai todos dias dizer que os melhores funcionários das empresas se iam embora.
Os dois jovens que se tinham auto-nomeado dirigentes sindicais, esses continuavam a dar todo o apoio às jovens filhas do patrão, embora elas também desconfiassem das intenções dos jovens sindicalistas.
Uma situação descansava minimamente o empresário Manuel e as filhas, estes dois jovens seus empregados que estavam a liderar as movimentações sindicais dentro das empresas não estavam ligados a partidos da extrema-esquerda e, achavam eles, pai e filhas, que só quem estivesse ligado a partidos da extrema-esquerda ocuparia as empresas dos patrões.
Todas as ocupações de empresas que diariamente se faziam, estavam a ser lideradas por partidos da extrema-esquerda. Estes dois jovens sindicalistas pertenciam ao Esquerda moderada, e este partido era mais moderado nas ocupações.
Mas para o empresário Manuel, a esperança já se tinha desvanecido. Já só lhe restava proteger as suas filhas, fazer de motorista delas já era uma das suas ocupações diárias, mas continuava a lutar contra as ocupações das suas empresas.
Das conversas que continuava a ter com Pedro, ouvia deste que o futuro das suas empresas estava traçado, mais cedo ou mais tarde, de uma maneira ou de outra, seria ultrapassado, poderia ficar sem elas. Pedro, por razões profissionais ia acompanhando as empresas do grupo, ia falando com as filhas do empresário para que lhe fizessem chegar feedback da situação, para ele poder avaliar mais o risco de crédito mal parado.
Nas conversas que mantinha com Paula, não era totalmente alheia a simpatia que nutriam um pelo outro. Se os tempos acalmassem, provavelmente se concretizariam os desejos do pai Manuel, ver este jovem Pedro, seu genro. A filha Paula, também gostava do moço e até sentia protecção e confiança nele.
Cada vez se traçava mais o destino das empresas de Manuel. Já estavam praticamente reduzidas a metade dos trabalhadores. Os dois jovens sindicalistas, continuavam activos e incansáveis nas suas lutas sindicais pelos “direitos” dos trabalhadores!.. Lideravam todas as movimentações dos trabalhadores, mas nunca se sabia, nem os próprios trabalhadores sabiam bem de que lado é que eles estavam, se do lado das empresas, se do lado dos trabalhadores, não estavam de lado nenhum destes, mas eles dois entendiam-se muito bem, pareciam muito bem sintonizados.
A revolução dos cravos continuava. Todos os dias havia novidades. Empresas que eram nacionalizadas, outras eram tomadas pelos trabalhadores.
O empresário Manuel, a sua cabeça ia ficando em água, restava-lhe sempre uma pouca de esperança. A esperança é a ultima a morrer!..
Pedro, homem inteligente e profissional responsável que continuava bastante preocupado, o Crédito em risco e mal parado continuava a aumentar e o das empresas de Manuel corria o risco de caminhar para a mesma situação e para ele, havia ali um duplo Plano dos sindicalistas.
Começaria por saber mais de perto como ia a contabilidade e as finanças das empresas do grupo, embora para ele não houvesse muitas dúvidas, pois para um profissional do ramo, quais queres indícios revelam como vão as finanças duma empresa. Por vezes, basta ver como está arrumada secretária do responsável da empresa.
Há profissionais do ramo, que ao reunirem-se pela primeira vez com o responsável da empresa, ficam logo com 50% da radiografia da empresa, só ao verem a disposição, arrumação e utensílios em cima da secretaria do responsável da empresa.
Mas Pedro não podia descorar mais a situação, havia que começar a tirar as coisas a limpo.
Reunir-se com Paula e colocar-lhe as coisas claras, ela teria uma resposta com indícios.
Pedro sabia que Paula tinha muita consideração e respeito por ele. Sabia que Paula já tinha ouvido do pai as considerações tecidas sobre Pedro, quer como profissional, quer como pessoa. Numa situação financeira muito difícil que as empresas de Manuel tinham atravessado antes da revolução, a boa negociação que Pedro tinha exercido entre a instituição financeira que representava e Manuel, salvou as empresas do pior e Paula já sabia disso, por informação do pai.
Na conversa com Paula, Pedro foi directo ao assunto, sem rodeios para além da radiografia das finanças da empresa. Falou-lhe no que ele já desconfiava há muito tempo.
Os dois sindicalistas, Carlos e Rui, para além de se quererem assenhorar das empresas, também tinham em seus planos, casar com as filhas do proprietário das empresas, Pedro alertou-a disso.
Paula confirmou a Pedro aquilo que ele pensara, também já tinha desconfiado.
Embora com desilusão e revolta, Paula confirmava-lhe esses planos dos sindicalistas.
Com desilusão e revolta de Paula, porque desde sempre, os planos das duas irmãs eram outros. Ainda não tinham perdido a esperança de concluírem os curso na Universidade, estavam à espera que as coisas socialmente acalmassem e depois talvez retomassem esses planos.
Mas para os sindicalistas, uma situação implicava a outra. Tomar as empresas contras as filhas de Manuel agora já era muito difícil.
Então, desde há muito tempo que sempre que as duas irmãs precisavam de alguma mordomia, lá estavam eles sempre disponíveis.
O empresário Manuel, também já se tinha apercebido, só que não se queria meter no assunto. Entrou numa depressão de desleixo, não era fácil ver as suas empresas estarem a ter aquele fim. Empresas que tanto lhe custaram a constituí-las. Mas agora, ao sabor de uma revolução social-politico-ideológica, poderiam desabar e serem entregues a quem as acabaria por destruir.
Os dois sindicalistas, continuavam com os seus planos em grande. Carlos, começa a situar-se mais pelas empresas ligadas à indústria, que era a área de Paula.
Rui, mantinha-se pelas empresas da área do comércio, que era por onde se situava a Inês.
As ocupações continuavam por todo o país, embora para mais a Sul, era por onde se situava mais perigo.
Outros sindicalistas à pressa por todo o país, se iam assenhorando das empresas onde comandavam as manifestações e ocupações selvagens. Alguns deles a frequentar a universidade, abandonaram os cursos, pois ser empresários tão rápido era muito melhor do que ter um curso de engenheiro do IST.
Assim que tinham as empresas em seu nome, passo seguinte, era assenhorarem-se das associações patronais para comandarem todas as movimentações nesta área, alguns por aí se mantiveram até aos actuais dias de 2021, quem os vê todos aprumadinhos, engravatadinhos a escolherem as palavrinhas certas para pôr fora da boca, com cara de santinhos a sentirem-se tratados por engenheiros, que não são, até parece que foram grandes trabalhadores, quando na realidade, são especialistas em falcatruas e destruição da economia nacional.
Esta pressão sobre Manuel e as filhas continuava. Os sindicalistas aproveitavam-se dela e continuavam a gerir a vantagem. Se viam que as coisas não estavam a correr para seu lado como eles queriam, lá vinha mais uma reunião de trabalhadores e uma ameaça de greve em todas as empresas. Enquanto iam propondo planos de salvamento das empresas às filhas de Manuel.
Planos que passavam por as empresas passarem para nome deles ficticiamente e assim, como dominavam sindicalmente os trabalhadores, estes já teriam grande dificuldade em tomarem as empresas.
Esta técnica, fora-lhes sugerida pelos seus advogado, que era praticado por alguns advogados no verão quente de 1975.
Nestes tempos, por todo o país, corriam as noticias da implantação do comunismo no país e muitos proprietários entraram em pânico pensando que todos bens passariam para um Estado Comunista, por isso, procuravam aconselhar-se com advogados qual a melhor maneira de evitar isso. Advogados houve que utilizaram essa técnica, passar os bens temporariamente para nome deles e depois quando o perigo passasse, voltariam a passar esses bens para o nome dos legítimos proprietários, só que muitos desses advogados nunca mais passaram esses bens para o nome dos legítimos proprietários. Por isso, hoje em Portugal existem advogados grandes proprietários que no 25 de Abril só tinham a roupa que vestiam.
Numa das deslocações habituais que Pedro fazia à sua terra natal, alguns habitantes chegavam a perguntar-lhe se era mesmo verdade que todas propriedades iam passar para os comunistas? Pedro sugeria-lhes que não acreditassem nisso, porque o comunismo nunca vingaria em Portugal. Mas nem todos acreditavam e continuavam a procurar esses advogados que sim, para esses passaram mesmo e nunca mais voltaram aos legítimos proprietários.
No caso das empresas de Manuel, os sindicalistas não optaram por passar as empresas para nome dos advogados, mas sim para nome deles próprios.
As comissões de trabalhadores eram tuteladas por Carlos e Rui, e os trabalhadores sempre pensavam que todos aqueles planos dos sindicalistas, eram para de um momento para outro, as empresas seriam dos trabalhadores. Por isso, para além da presença nos Plenários, deixavam todas as tomadas de decisão aos dois sindicalistas.
Paula e Inês, já não tinham dúvidas dos planos de Carlos e Rui: era casarem com elas e depois porem as empresas em nome deles e das mulheres.
As mulheres continuariam proprietárias das empresas, eles passavam também a ser proprietários e os trabalhadores já pouco poder teriam para se oporem a eles dois, quer como sindicalistas, quer como patrões.
Os trabalhadores também se sentiram traídos, mas já não havia nada a fazer. Ou melhor, já não podiam fazer nada.
Entretanto dá-se o 25 de Novembro e o país, politicamente também sofre uma viragem, foi posto fim à anarquia total das ocupações selvagens.
Paula ainda tentou conversar com Pedro, para que este apresentasse um plano de argumento referindo o credito da instituição financeira, para que os dois candidatos a proprietários recuassem um bocado, mas Pedro, ao fazer uma análise muito rápida, viu a situação muito confusa. Os dois sindicalistas já tinham avançado muito nos seus planos. Pedro sabia que se tentasse intrometer-se no caminho dos planos dos sindicalistas, até poderia correr perigo de vida. Falou com Paula e Inês e estas compreenderam.
Para elas, cada vez se sentiam com mais portas fechadas.
Paula ainda tentou convencer Inês para um golpe de rins: como a situação política do país estava a virar, chamarem o pai com um verdadeiro advogado, Pedro como representante da instituição credora, elas duas como herdeiras, fazerem finca-pé e assim poderiam inverter a direcção da situação.
Mas tanto o pai Manuel como a Inês sentiram-se pouco confiantes no sucesso da tomada de posição. O pai já tinha desanimado completamente e Inês assustava-a esta tomada de posição, sabia do que seriam capazes Carlos e Rui, caso os seus planos fossem interrompidos e Pedro não estava muito disposto a meter-se em tal aventura.
Para Paula, era difícil aceitar esta situação, estava a ser ultrapassada nas suas capacidades, era difícil para o temperamento dela, deixar-se dominar por toda esta situação, tinha um pouco o sangue e garra do pai, era-lhe terrivelmente difícil aceitar esta situação.
Para alem das empresas que o pai tinha criado com tanto orgulho, dedicação e empenho, ela própria tinha bebido aquelas ideias do pai que seria a sua sucessora e predecessora da obra.
Depois, embora elas sempre tivessem simpatizado com os empregados, Carlos e Rui, mas revoltava-as casarem com eles, quase como obrigadas por eles próprios, sem terem outra saída, ou casavam com eles e ficavam com as empresas, ou não casavam e ficavam sem as empresas.
Os sindicalistas continuavam com os seus planos bem orquestrados. Sempre que se reuniam com Paula e Inês, falavam-lhes em mais e mais empresas por todo o país a passarem temporariamente para o nome de trabalhadores de confiança para evitar de irem para o Estado ou até partidos políticos, que nem sempre essa informação correspondia à verdade, em alguns casos sim, mas cada dia que passava os casos eram menos, porque o país já estava a mudar, já não eram os comunistas que estavam a mandar em tudo no país.
As saídas para Paula e Inês já não eram muitas, ou quase nenhuma. Eles tinham arquitectado os planos bem à maneira deles. Com muito tempo e meticulosamente, os seus advogados sindicalistas estavam do lado deles, sempre que os sindicalistas chamavam Paula e Inês a ouvirem a opinião dos advogados, estes davam sempre uma opinião favorável à opção de Carlos e Rui
Assim aconteceu, Paula e Inês não tiveram outra saída, para não ficarem sem as empresas: Paula casou com Carlos e Inês casou com Rui.
Não foi fácil nem pacifica a situação. Após breves tempos de casamento, houve intenções de divórcio, em ambos os casos, situação que os advogados dos sindicalistas já os teriam alertado para essa situação possível de vir a acontecer, por isso, quanto mais depressa houvesse filhos melhor.
Mas aí, a situação até já seria mais complicada. O perigo das empresas serem tomadas pelos trabalhadores já tinha passado, mas havia agora a posse por parte dos maridos, já havia filhos. Assim, Paula e Inês acabaram por se resignar à situação.
Cada casal, acabou a fazer a separação das empresas. Cada um seguiu o seu ramo separadamente.
Os ex-sindicalistas e agora patrões, tentaram desempenhar o seu melhor possível o papel de empresários.
Não foi fácil, mas aí, já com a ajuda das mulheres, eles conseguiram melhorar
Carlos e Paula, progrediam mais que Inês e Rui.
Paula, uma mulher de fibra, toda a parte administrativa e financeira da empresa era da sua responsabilidade. O marido começou quase por ter um papel de caixeiro-viajante, mas também não sabia vender, não tinha diplomacia, sabia de sindicalismo selvagem e nos negócios, sindicalismo é para esquecer, assim, ia tentado adaptar-se no que podia.
Com a boa gestão e orientação de Paula, a empresa alargou-se, teve sucesso, cresceu transformou-se numa holding e internacionalizou-se, mas o motor da empresa era Paula.
Paula, era de facto uma excelente Gestora e Administradora de Empresas, tinha na realidade a inteligência, o sangue e garra do pai, sabia ler a inteligência e a capacidade dos seus colaboradores e ia colocando os melhores nos lugares de responsabilidade. Assim, cada dia que passava, a empresa crescia mais e tinha mais colaboradores.
Com os anos, se notava mais o domínio da empresa, pela responsabilidade de Paula, era de facto uma senhora competentíssima. Decorridos 10 anos, a empresa de Paula já facturava o dobro de quando era do pai.
Inês e o marido, também progrediram alguma coisa, ficaram com uma situação boa e confortável mas não conseguiram progredir tanto como Paula.
Paula, com a sua fibra, assumiu continuamente ela as rédeas da empresa, delegando o marido para o exterior, viajando pelo país e estrangeiro e quando estava no país limitava-se a passear pela empresa, receber cortesmente os compradores, fornecedores e parceiros de negócios, as visitas!
À medida que os anos iam passando, cada vez ele, era mais objecto de decoração da empresa.
A empresa cresceu com mais trabalhadores que no tempo do pai Manuel. A facturação já era muitas vezes superior.
Carlos, marido de Paula, ficava cada vez mais enfiado nos sofás dos gabinetes de Direcção. Enquanto Paula continuava uma mulher apresentável, simpática a receber todas pessoas com simpatia e cara alegre, desde trabalhadores a homens e mulheres de negócios que visitavam a empresa.
A empresa moderniza-se, faz uso das melhores tecnologias de ponta.
É um gosto entrar por aquela empresa dentro, ver toda aquela organização impecável, do melhor que há em instalações, tanto para a parte de produção como administrativa. Todos os colaboradores expressam satisfação e sempre boa disposição. Pessoas apresentáveis, prestáveis e atenciosas.
Carlos, seguiu mais os princípios de antigo sindicalista. Acomodou-se.
Paula, utilizou o passado como trampolim!
Carlos, utilizou o passado como sofá!
Carlos, já obeso, passa dias inteiros no cabeleireiro, embora já com o pouco cabelo que tem e brincando com algum dinheiro, nas aventuras da Bolsa.
Paula, embora com a idade que já tem, continua uma mulher apresentável, jovial, todas as pessoas, desde jovens a idosos, gostam de falar com ela.
As “crises” do século XXI, não travaram a continuidade das empresas de Paula. Sofreu como muitas sofreram os efeitos maléficos e contagiantes das empresas tóxicas que afectavam o mercado e causadoras das “crises” do século XXI, mas nas suas empresas, continuou com o seu progresso de sempre. Com uma Administração dirigida por Paula, assessorada e coadjuvada por técnicos dos melhores de todas as especialidades, principalmente por técnicos especialistas da área financeira e engenharia, com advogados de confiança, que Paula sempre soube seleccionar e contratar.
Se todas administrações das empresas públicas e privadas deste país tivessem à frente pessoas como Paula, não teria sido necessário terem passado por Portugal os elementos do F.M.I. três vezes em tão pouco tempo: 1977/78; 1982/83; 2011/12.
O pai Manuel, já falecido recentemente, passou todos estes anos, fazendo o gosto à sua mente com pequenos negócios de ocasião, brincando com os netos que as filhas lhe deram.
Mas celebrizou-se com a frase:
Raptaram-me as filhas e levaram-me as empresas!..
( a frase não foi bem assim que ele a expressou ao autor deste texto. mas!.... entenda-se a palavra que ele proferiu expressar em vez de: raptaram-me!..) em vernáculo.
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